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12 de junio de 2015

Capítulo 1 - O Conflito




       Foi o que aconteceu com Alves. Viu-se numa situação em que poderia refugiar-se na segurança do modelo recebido em casa ou iniciar sua reformulação, supondo que culminaria, no futuro, em algo novo e desta vez, criado por ele mesmo. Mal sabia ele que ao enveredar por esta segunda opção encontraria uma estrada que não lhe ofereceria segurança enquanto por ela trilhasse, deixando-o a todo instante tendo que fazer uma escolha. Ele tinha consciência da exigência imposta ao indivíduo para conviver em sociedade sentindo-se em segurança. Teria que aceitar muitos valores já estabelecidos e, ao mesmo tempo, não queria abrir mão de alguns que ele considerava inegociáveis. Sabia da existência de uma autoridade social anônima e sabia, também, que é somente submetendo-se a ela que a pessoa consegue viver sentindo uma relativa segurança. Abrir mão de certas coisas era para ele um problema; algumas ele não queria e nem iria abrir mão. Ele sabia disso e aí residia parte de sua dificuldade e a maneira como iria resolver isso definiria sua personalidade.
       Segundo ele pensava, o contexto social pode ou não ser aceito de um modo inconteste pelo indivíduo. No primeiro caso, encontrará segurança imediata, pois cada atitude sua reforçará a seguinte, contribuindo para que ela continue sendo aceita pelo grupo e levando-a a uma vida em harmonia com os demais. Por outro lado, caso não aceite, ela pode permanecer no modelo já adquirido na família; modelo este que tem características restritas e finitas e que, certamente, não poderá alimentá-lo pelo resto de sua vida e ainda, se mantido, poderia trazer consequências funestas. 
       Pode-se levantar a possibilidade de uma terceira opção e que aparenta ser a mais adequada: uma aceitação parcial. Neste caso – pensava Alves -, ele ficaria dividido entre o contexto familiar e aquele que era aceito socialmente. Embora parecesse boa, esta opção não se lhe ocorrera de uma maneira clara. Pareceu-lhe que neste caminho, na verdade estaria era deixando para depois, para o futuro, a solução de alguns problemas quanto à adoção ou não de certos comportamentos e que eram justamente os que entravam em choque com o contexto familiar original. Neste caso, alguns poderiam persistir por toda a sua vida sendo ou não solucionados. Não havia nenhuma garantia, apesar dele não poder negar que esta escolha lhe agradava de imediato, mas, por outro lado, ela também lhe causava certa confusão que ele não sabia definir. Estava tudo muito misturado em sua mente e ele percebia a contradição grave que seria aceitar viver, ao mesmo tempo, segundo os dois contextos. 
      Alves encontrava-se diante de três situações inconciliáveis e tendo que escolher uma delas. Uma era seguir o modelo familiar que recebera durante sua infância, a outra era seguir o modelo social que não desautorizava completamente o primeiro, mas impunha-lhe algumas restrições e ajustamentos e por último àquela que o obrigaria a viver entre os dois, numa constante luta, obrigando-o a conciliá-los a todo instante e que lhe parecia ser incapaz de manter durante todo o tempo, pois, teria que viver num alerta constante que o acabaria levando-o à exaustão, tanto física quanto mental. Para esta última situação e para seu inferno, a mente de Alves fora escolhida pela vida madrasta para ser o palco desta peça. Esta era crise pela qual estava passando. Buscava fazer a conciliação destes dois modos de ser que lutam entre si pela supremacia; luta da qual ele, e somente ele, dificilmente sairia ileso. Torna-se um conflito porque a pessoa dentro da qual ela se dá, não consegue ser fiel a nenhum dos dois. Ele participa desta luta apenas com a sua percepção, como mero expectador. Alves não escolheu, fora escolhido e não se sabe por que e nem por quem. Este o seu inferno. Tais acontecimentos invisíveis eram os primeiros passos na construção de sua identidade e que fariam dele um ser diferente dos demais.
       De uma maneira que não encontramos palavras para explicar, só podemos dizer que aquele jovem não teve sozinho a responsabilidade pelo tipo de personalidade que desenvolveu. No princípio ele sempre procurou evitar o contato com as outras pessoas. Com relação a seus vizinhos, por exemplo, ele acreditava não ter nenhum assunto de real interesse sobre o qual pudessem conversar e até mesmo o bom-dia com que os saudava ao passar por eles, achava perfeitamente dispensável, para não dizer ridículo, pois, o bom que eles estavam se referindo, poderia não ser bom para ele e nem o que ele retribuía poderia o ser para eles; um aceno com a cabeça ou com a mão seria mais adequado e honesto já que o costume o obrigava a cumprimentá-los. Assim, nesta época de sua vida, seu círculo de amizades estava restrito a uma ou duas pessoas, se tanto.



Continua...




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