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24 de junio de 2015

Capítulo 3 - No hospital

      


       A chamada Ala dos Doentes Mentais era mais uma expressão técnica do que prática, já que se tratava de um hospital público. Em virtude das precárias instalações não havia uma efetiva divisão dos pacientes. De modo geral, os doentes ali iam dos pouco aos muito perturbados, tal como ocorre entre os mais e os menos normais, encontrados na sociedade - desde que sejam guardadas as devidas proporções.
       E Alves, para sua sorte ocupava uma cama daquela enfermaria onde somente três das cinco estavam ocupadas. Era um cômodo relativamente grande, com duas janelas altas em cada parede e duas filas de três camas, uma de cada lado. A ocupada por Alves ficava ao fundo e no canto, de modo que a uma só olhada ele podia ver toda a enfermaria. Não se preocupou em saber quem eram os outros dois pacientes. 
       De um modo curioso, o que ele sentia era um grande alívio, pois, mais uma vez – pensava ele -, estava a salvo. Deixou-se ficar deitado, pensando em tudo o que acontecera nos últimos dias e em como havia enganado a todos. Seus pertences estavam colocados em segurança sobre a mesa de cabeceira do lado direito de seu leito. 
       Quando acordou, a manhã já ia alta. A claridade tomava conta do ambiente e de sua mente também. Nunca se sentira tão lúcido e despreocupado. Aos poucos e à medida transcorrera o dia e a noite ia chegando, foi se dando conta que não faria diferença alguma se ele tivesse levantado ou não, pois ninguém aparecera até àquela hora da noite. Tudo estava como no dia anterior. A este pensamento não pode deixar de dar uma gargalhada e em seguida levantou a cabeça esperando encontrar todos olhando para ele, mas não. O silêncio voltou a ocupar o seu lugar na enfermaria, como um paciente que nunca saíra e nunca sairia dali. Então riu outra vez, e outra e assim cada vez ria mais alto chegando a ficar com os olhos cheios d’água. E, então, cansado de tanto rir, deitou de costas na cama com os olhos fechados pelas lágrimas.
       Subitamente, sentiu que mãos fortes agarravam seu corpo de tal maneira que não conseguia mover um músculo sequer e, ao mesmo tempo, sentiu uma agulhada no seu braço esquerdo e, logo em seguida, aquelas mãos o soltaram e mais uma vez. 
       Viu-se sozinho na cama. O sono veio matar o seu riso. Quando abriu novamente os olhos já estava escuro e ficou sem saber se havia sonhado, se era a noite do mesmo dia ou se já era outra noite novamente. Só a dor no braço lhe falava que acontecera. 
       Levantou-se assustado e viu sobre a mesinha de cabeceira uma bandeja com comida, já agora fria. Não sabia quando comera da última vez e estava com fome. Comeu recostado na cama. Depois de passado algum tempo sua mente foi se recuperando. Já se lembrava do dia em que ali entrara, mas não sabia desde quando estava ali, embora achasse que fora no dia anterior. Mas não tinha certeza. 
       Voltou a pensar no que lhe acontecera e sentiu-se como antes se sentia lá fora: encurralado e sem saber o que poderia fazer e de que forma poderia lutar. Sabia que não estava mais lá fora, mas, também sabia que em seu interior, ele era a mesma pessoa. Mudara apenas de lugar. A única coisa que não poderia ser mudado era o seu pensamento. Não poderiam impedir que ele pensasse. Encolheu-se na cama tapando-se com a coberta, como uma criança, com medo dos monstros que poderiam sair do armário onde estavam trancafiados. 
       Dormiu e acordou várias vezes, sem sair de seu leito. Nunca vira ninguém trazer a comida, mas todos os dias a bandeja estava sobre a mesinha. Era só esticar o braço, pegar e comer. Além disso, só lhe restava o conforto trazido pela segurança que sentia sob as cobertas, entregue a pensamentos que lhe parecia terem vida própria e que não cessavam, surgindo de algum lugar como cometas chamejantes rasgando o vácuo do infinito de sua mente. 
       Para que serve o pensamento? Para pensar. Mas, em primeiro lugar, servia para levá-lo de um lugar para outro, independente de espaço e tempo – lembrou que estudara isso na escola. Se vamos pescar próximo à margem, por que ter um barco? – Seu avô sempre falava. Mas, tendo um barco, por que pescar na margem? Assim, tal como o pensamento o barco não fora feito para as beiradas dos rios ou mares, era para pescar em águas profundas. E para isso servia o pensamento e não para ficar na superficial. Para a superfície existiam os cinco sentidos. Logo, pensar superficialmente não era tarefa própria e nem a mais importante do pensamento. Não é a melhor qualidade que possui um veículo de transporte. O pensamento como um veículo, pode nos levar a lugares desconhecidos. Basta que esteja habilitado para isso. E que possa levar e trazer de volta, deve ser bem equipado.
       Com seu pensamento, Alves sentia-se bem no mar; podia ir por seus caminhos, livres de fronteiras físicas. Buscava harmonia e não desavença. Aí então, por sobre as águas, podia conhecer a enorme variedade de vida existente em todo o universo. O desconhecido não é perigoso, perigosa pode ser a maneira como cada um vai para ele. Uns lutam para ir e outros não. Os que vão – pensava ele -, devem abandonar-se ao fluir do seu compasso. 
       Mas a quem irei? – Perguntava a si mesmo. A quem deverei dirigir meus pensamentos? Quais as pessoas que deveriam ouvi-los? Sem dúvida àqueles que dirigem o mundo. Mas quem são esses? Acaso seriam os políticos, os reis, os líderes religiosos, os presidentes, os ministros, os filósofos, os moralistas... Mas são tantos! Será que não haveria um único nome que eu pudesse dar a todos eles? O que têm eles em comum? A riqueza e, consequentemente, o poder... Sim, é isso... Os que são ricos detêm o poder! Seria assim que os designaria de agora em diante, concluiu Alves.
       Assim ficava ele, vagando com seus pensamentos. Escreverei o que cada um deve saber. Quem sabe suas almas possam ser tocadas e, em seguida, também modifiquem seus interesses e eles modifiquem o mundo para melhor. Mas, devo ser cuidadoso. Um homem com poder não gosta que toquem em suas consciências. Mas, por outro lado, não vou dizer o que eles devem fazer; apenas os fustigarei um pouco. Perguntarei muitas coisas também. Eles gostam de pensar que sabem tudo. 
       Seu pensamento, subitamente, estacou diante de uma pergunta: como conseguirei fazer isso?
     


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